“Mãe, posso ser chuva?”, texto de Felipe Mello

O Bauman é sabido. Aponta liquidez em todos os lados: pessoas, sentimentos e relações. Na metáfora desse sociólogo polonês, ser líquido está ligado à resistência ao compromisso, revelando o desejo de fluir quando der na telha. Vacilou, escorreu. Por 10% a mais de salário ou 10 cm a mais de busto.

No verão chove muito. Não conheço mãe que diga “meu filho, já para fora que começou a chover”. Até o dito popular vai contra a chuva, sugerindo que o cavalinho seja tirado, e não colocado, em contato com a precipitação pluviométrica. Por que tanto medo dela?

Somos líquidos literal e metaforicamente. Somos 75% água. Foi a minha professora de ciências que disse. E eu confiei. Era uma mulher sábia.

Deu-se o impasse: bom ou ruim ser líquido? Antes da pergunta anterior, uma pergunta ainda mais anterior. É razoável perguntar se é bom ou ruim ser líquido? Pode ser mais gostoso desqualificar menos e compreender melhor o fato. Grandes e naturais exemplos.

Para onde correm os rios, desde o menor até o Amazonas ou o Nilo? Ao mar. Seu destino é se misturar ao diverso, ganhando a imensidão oceânica. Doce e salgado formando destino. Se fluir é uma característica do que é líquido, e o humano é três quartos do mais nobre deles, como não fluir?

Para onde fluir e com quem se misturar, então, seriam as questões?

Hoje choveu a cântaros, como diria o avô de alguém. Água e mais água. São Pedro aprontando com São Paulo. A chuva estava doce. Fez barulho ao bater em meu rosto por mais de uma hora. Flui como poucas vezes ao deixar a água se misturar a mim.

Sinto que água não entristece em jarro ou lago por falta de fluência. A angústia parece vir do não reconhecimento daquele jarro ou lago como o seu mar. Falta de doce encontrando salgado. Para rios que não estão dispostos a reconhecer mares, a liquidez vira gaiola e deixa de ser asas, mesmo em meio a correntezas e cachoeiras barulhentas, movimentadas e imponentes.

Mãe, posso ir brincar na chuva?

Pode, meu filho. Brinque muito, especialmente de ser chuva.

Texto de Felipe Mello
felipe@cantocidadao.org.br

2 ideias sobre ““Mãe, posso ser chuva?”, texto de Felipe Mello

  1. Lindo texto…
    O trecho “Até o dito popular vai contra a chuva, sugerindo que o cavalinho seja tirado, e não colocado, em contato com a precipitação pluviométrica. Por que tanto medo dela?” foi perfeito, por San Gennaro, porque o medo ?
    Eu adoro chuva, quando vivia em Itanhaém sempre tomava chuva, para desespero da minha mãe, rsrsrs
    Hoje a chuva me ajuda a disfarçar minhas lágrimas. Assim ninguém percebe o quanto é bom, o quanto é ruim.
    Forte abraço…

  2. É engraçado… quando somos pequenos (ops! continuo pequenina!) quase tudo nos causa medo, mas brincar na chuva é fascinante! Quando crescemos (já sei, já sei… sou pequenina) e não há ninguém a nos mandar sair da chuva, ela se torna desagradável e fugimos dela! Mas, na virada do ano pensei: “Ano Novo, vida nova, chuva nova…”. Mandei tudo “às favas” e fui correr na chuva só pra resgatar algo que tinha ficado perdido em algum lugar… o prazer de sentir a chuva no rosto sem me preocupar com mais nada! Mas depois de ler esse texto compreendi que no fundo eu queria mesmo era brincar de “virar chuva”!rs. Que possamos a cada dia resgatar os pequenos prazeres da vida como o perfume das flores (sabe aquela Dama da Noite que tem perto da sua casa?) ou aquela sua música preferida que você não ouvia há tempos? Cante e dance ainda que os outros te olhem de modo estranho… seja como as crianças, simplesmente VIVA! Beijos!!!

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